João Barreto: 63 anos de história com a praia

A praia tem o poder de revelar histórias que o tempo não apaga. Vivências escritas na areia, com o sal do mar e a força de quem acredita nos próprios passos. Entre tantas que nasceram sob o sol carioca, uma segue inspirando gerações: a de João Barreto, o homem que transformou um sonho simples e uma carrocinha de cachorro-quente em um dos maiores símbolos da cidade do Rio de Janeiro, ao lado de sua parceira de vida e de trabalho, Jandyra Barreto, cuja dedicação foi essencial para tudo isso.
Neste 15 de outubro, João celebra seus 63 anos de praia, dias dedicados à orla carioca, lembrando om momento em que começou sua trajetória, ainda jovem, em uma Barra da Tijuca quase deserta. Na bagagem, coragem e fé. E na alma, o desejo de viver da praia e pela praia.
Natural de Peixe Gordo, no litoral do Ceará, João chegou ao Rio com o coração cheio de planos e o olhar voltado para o horizonte. Instalou sua carrocinha, a Jonn’s, e começou vendendo cachorro-quente e achocolatado Sustincau aos poucos frequentadores que se aventuravam até aquele canto distante da cidade. O acesso era difícil, o trabalho exigia improviso. Gelo era luxo e o lampião garantia a luz das noites de serviço.
Foi dessa rotina árdua que surgiu o embrião daquilo que o carioca hoje conhece como Orla Rio. Barreto enfrentou as limitações da época, e também criou soluções que se tornaram tradição. Foi ele quem iniciou a venda de água de coco na praia, um hábito que hoje é sinônimo de Rio de Janeiro.
Mas todo esse legado não seria possível sem Jandyra Barreto, que em 1995 desempenhou papel decisivo na modernização dos quiosques, tornando-os mais confortáveis e convidativos, com mesas, cadeiras e guarda-sóis, contribuindo para que a cidade se consolidasse como destino ainda mais encantador para moradores e turistas. Ela, que ajudou a construir negócios, também criou fortes relações, inspirando quem a conheceu com sua força, doçura e dedicação.
A praia foi o escritório, a escola e a fé de João. Com o tempo, ele se tornou referência e liderança entre os trabalhadores da orla. Ensinou que o trabalho honesto, feito de domingo a domingo com humildade e dedicação, é capaz de transformar vidas. “Nós chegamos aqui como ambulantes, sem garantias, mas com muita vontade de vencer”, relembra com brilho nos olhos.
Em 1990, a cidade mudava. Os antigos trailers e carrocinhas davam lugar aos modernos quiosques, e a Orla Rio nascia oficialmente, refletindo o espírito de seu fundador e a parceria fundamental de Jandyra: visão, coragem e paixão pela praia.
Hoje, aquele jovem do Nordeste é reconhecido como o precursor da orla moderna, um símbolo de resiliência e fé. Seu legado se estende nas areias e no trabalho de cada operador que, todos os dias, abre seu quiosque para servir com o mesmo entusiasmo de quem acredita no poder do mar.
Aos quase 80 anos, ele segue olhando para o mar com o mesmo encantamento de antes. “A praia é o maior convite do Rio. Mesmo com o Cristo e o Pão de Açúcar, é ela quem faz o visitante ficar. A praia é o coração da cidade”, afirma, com a serenidade de quem sabe que contribuiu fortemente para moldar um pedaço da alma carioca, sempre ao lado da saudosa Jandyra.
Hoje, a Orla Rio é liderada por seu filho, João Marcello Barreto, que herdou o mesmo brilho nos olhos e o compromisso de transformar a praia em um espaço de oportunidade, sustentabilidade e pertencimento. São 309 quiosques, 27 postos de salvamento e 34 quilômetros de orla que respiram o legado de quem nunca desistiu.
Contudo, João Barreto e Jandyra deixaram um exemplo de vida, um jeito de ser carioca, mesmo tendo nascido no sertão. E é por isso que, ao celebrar seus quase 80 anos de vida e 63 anos de praia, o Rio celebra também a história de uma dupla que transformou fé, suor e areia em um dos capítulos mais bonitos da cidade maravilhosa.

RI Rio de Janeiro (RJ) 27/01/1996 Orla Rio – João Barreto – Foto Domingos Peixoto / Ag O Globo

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